
A Hora do Recreio
Na última semana topei com uma idéia muito interessante, daquelas suficientes para colocar o cidadão no eixo e o fazer pensar um pouco sobre nossa função na terra e em nossas relações com o próximo.
No livro Preconceito, Indivíduo e Cultura, o autor José Leon Crochík ao fazer uma análise sobre os conteúdos dos estereótipos apresenta um fator histórico sobre a relação da sociedade e do ser humano com o trabalho, muito interessante.
Neste ponto seria melhor apresentar as palavras do citado autor para uma reflexão um pouco mais detida sobre o tema:
“Mas os conteúdos transmitidos por meio dos estereótipos são fruto, também, de um mecanismo social que visa a manter o status quo. Desde os tempos primitivos da civilização, os homens tentam explicar o mundo quer o natural, quer o social, tendo como base a forma como organizam a sua vida, ou seja, pela divisão do trabalho. Assim, aqueles que executam os trabalhos ditos inferiores são considerados inferiores, e, de uma forma mais ampla, aqueles que se destinam ao trabalho são tidos como inferiores perante aqueles que comandam.”
Com fundamento nessa premissa, o barato da antiguidade era não fazer nada, uma vez que trabalho era coisa de escravo e o cidadão para ser classificado assim e consequentemente aceito na sociedade não deveria, mesmo que quisesse, pegar no pesado.
Como o Pedrão observou muito bem: A palavra "trabalho" vem, etimologicamente, da palavra " tripalium", um instrumento de tortura romano.
Todavia, passados os anos e com a diminuição da capacidade intelectual do homem, que antes fazia filosofia e hoje só faz sofrer, passamos a ter a necessidade de trabalhar, e o dito status social do trabalho passou a ter uma outra conotação política dentro da sociedade.
Noutro trecho do livro o professor Crochík apresenta essa relação do homem com o trabalho ao longo da história, verbatim:
“Que essa visão natural de algo que é social seja errônea pode ser visto nas diversas valorizações que o trabalho teve ao longo da história: na antiga Grécia o trabalho era desvalorizado, quem o fazia era o escravo; na modernidade todo homem livre deve produzir para contribuir com o crescimento social. No entanto, o estereótipo sobre o escravo não é o mesmo do trabalhador que não é proprietário, embora a obediência em relação ao senhor não seja menos obrigatória. O escravo não poderia se libertar de sua condição, independentemente de sua vontade e de sua competência; já o trabalhador que não “progride” na vida é percebido como não tendo vontade, ou não tendo competência para isso. Se o escravo não podia ter vontade própria, o trabalhador é visto como não a tendo, e, assim, o escravo era considerado inferior por natureza, e o trabalhador também o é, por não querer ser superior por natureza. Por deturparem a realidade, ocultando aquilo que gera a desigualdade, os estereótipos servem de justificativa para a dominação. Como tal, tornam natural uma situação de opressão.”
Assim, verificamos, mutatis mutandi, que emocionalmente talvez seja mais interessante ser escravo, que ser trabalhador.
Por isso, fico com o aprendizado que tive com a minha sobrinha Laura, que questionada sobre a melhor aula não titubeou em apontar a “hora do recreio” como o melhor momento do dia letivo.
Claro, é na hora do recreio que as pessoas se socializam e criam seus laços dentro daquele microssistema social que é a escola. Nesta hora que podemos entender melhor o que pretende a escola em matéria de formação humana e como praticamos a sociabilidade em grupo.
Na hora do recreio descobrimos o próximo e como respeitar os espaços e ideologias, nesta hora que nos formamos cidadãos.
De outra ponta, quem gosta da hora do recreio gosta é da vida, gosta do novo, gosta do relacionamento humano que fundamenta nossa estada na terra.
Quem gosta da hora do recreio não será escravo do trabalho, porque terá a possibilidade de enxergar nas relações profissionais uma extensão natural da sua vida.
Quem gosta hora do recreio não vai escolher profissão por modismo, dinheiro ou status social, com certeza vai trabalhar com o que realmente gosta e fará das horas trabalhadas, uma continuação ininterrupta desta hora do recreio.
Antonio Carlos, casado, fofoqueiro, e sempre adorou a hora do recreio.
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