quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Quanto há de Buch na chegada de Obama ao poder?


Pedro Estevam Serrano
 

O presidente dos EUA, George W. Bush, tem pela frente seu derradeiro mês no cargo de maior destaque e relevo nos dias atuais. Depois de chegar ao poder graças a uma eleição ainda hoje sob suspeita, ganhou força e o apoio dos americanos com o episódio do ataque às torres gêmeas do World Trade Center, em Nova York. 

A derrubada das torres, um dos símbolos da força da economia americana, exibido em cartões-postais, marcou a escalada do discurso de combate ao terrorismo e de caça a Osama bin Laden. Baseado no medo, impôs legislações de exceção, ampliou o orçamento militar, correu o mundo atrás de terroristas e acabou por derrubar o regime de Saddam Hussein, no Iraque. Outrora aliado americano, como também o fora Bin Laden, Saddam Hussein foi enforcado a pretexto de se estabelecer uma democracia no país mulçumano.
 

Igualmente ao que aconteceu no Afeganistão, suposto abrigo de Bin Laden, a democracia não chegou ao Iraque. O que se vê é o recrudescimento da violência, a permanente troca de tiros, o flagrante desrespeito aos direitos básicos de humanidade. Tudo isso por parte de iraquianos e afegãos, mas substancialmente por parte das forças militares dos EUA, a começar da presença em território de outro país que está a milhares de quilômetros de distância do solo americano.

A chegada de Barack Obama à presidência dos EUA deu alento a muitos críticos das políticas de Bush. Cria-se a expectativa de que tamanhos despropósitos venham a ser superados e corrigidos com a chegada de Obama ao poder. O “fenômeno” eleitoral Obama parece ter obscurecido algumas análises sobre o que está por trás de sua vitória nas urnas. Isso porque a mesma eleição que levou o primeiro negro à Presidência da maior potência econômica e militar do planeta trouxe também outros sinais reveladores.
 

Como se sabe, os americanos, quando vão às urnas, além de escolherem delegados que os representam no colégio que elege o presidente, decidem questões de importância local e estadual. Os resultados das urnas revelam que, em três Estados, os americanos escolheram vetar a união civil de pessoas do mesmo sexo. Entre eles está a progressista Califórnia, berço do cinema americano e um dos Estados de vanguarda do país, onde residem muitos casais homossexuais. Flórida e Arkansas foram os outros dois.

Na Flórida e na Califórnia, Obama foi o mais votado, tendo John McCain vencido no Arkansas, o que mostra que não há, à primeira vista, um padrão de associação entre o voto em Obama e o voto a favor ou contra a união civil de pessoas do mesmo sexo. A opção por Obama, em tese mais progressista, veio acompanhada nesses Estados por escolhas mais retrógradas. Cabe perguntar
quanto há de Bush na alma do americano.
 

Após oito anos no poder, o republicano deixa o cargo reconhecendo que errou ao sustentar o que todos já anunciavam: o Iraque não tinha condições de produzir armas nucleares. O erro foi levado adiante, fazendo os EUA passarem por cima da ONU e implementarem uma verdadeira guerra civil no país. Junto com essa cruzada bélica, o mundo assistiu aos horrores de Abu Ghraib, com cenas explícitas de tortura de soldados presos em uma guerra inventada. Inúmeros são os casos de bombardeios e saques a templos sagrados, que remetem a épocas anteriores ao ano zero de nosso calendário. Um patrimônio histórico e cultural reduzido a pó em segundos no local onde existiu a civilização babilônica, a mesma dos jardins suspensos.

Indubitavelmente, foi George W. Bush que levou a campanha adiante. Mas o fez sozinho? Ou foi o artífice de um sentimento americano imperialista espraiado entre os cidadãos de seu país? Em que medida Bush é produto dessa sociedade que hoje elege Barack Obama, mas rejeita em alguns Estados a união civil de pessoas do mesmo sexo? Quanto há do atraso e da incivilidade de Bush no voto maciço em Obama?
 

Propaga-se um refazimento da sociedade americana com a chegada do primeiro negro ao mais alto cargo dos EUA, mas essa “reconstrução” de valores se mostra superficial ao observarmos que não haverá retirada imediata das tropas do Iraque. É fato que a gestão Obama ainda não começou e tudo está por ser escrito, mas é igualmente fato que ainda reluzem na alma americana muitos dos valores que levaram, mantiveram e incentivaram a Era George W. Bush.

Quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

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